O ano que vivi na China foi dos anos mais marcantes da minha vida. Não só por todas as situações dificieis que vivi mas também por todos os bons momentos por que passei.
Hoje passei o dia no Martim Moniz. O bairro está cravejado de lojas e mercados chineses e indianos. Escusado será dizer que o primeiro local onde pousei a minha pessoa, foi num mercado de comida chinesa. Parecia que, numa fracção de segundo, tinha deixado Portugal e chegara à China. O cheiro característico dos mercados ( e não estou a falar do cheiro dos sapatos das lojas banais chinesas de que toda a gente se queixa), toda a gente a falar mandarim, a quantidade de produtos que eu consumira em Tianjin, senti de novo a falta daqueles modos meio rudes para nós e o sorriso aberto quando metemos conversa em mandarim. Sim, eu falei mandarim com todos os que consegui e soube tão bem!
Bem, eu quase tive um colapso cardíaco mas estou bem. Não resisti, contudo, a comprar um 冰红茶 e um pacote de 雪饼.
Com tudo isto, quero mesmo dizer que sinto imensa falta da China!
Ontem aproveitei para me pôr a experimentar coisas novas na cozinha. Decidi preparar あんパン (anpan), uns pãezinhos japoneses recheados de pasta de feijão vermelho doce.
Quando estive em Tokyo, todas as manhãs a caminho da estação de metro de Asakusa, comprava um anpan no 7/11 junto do meu hotel. Era delicioso. Quando voltei para a China, era frequente comer coisas de feijão vermelho doce. Mas o hábito veio mesmo do Japão. Aliás, antes de ir estudar para a China, assisti a um anime, Bamboo Blade, onde uma das personagens era doida por bolinhos com este recheio. Parecia-me um perfeito disparate mas, estava enganada. Anpan é mesmo muito bom. Claro que é melhor não abusar na quantidade diária, afinal são recheados com feijão!
Ontem experimentei fazer. A minha Mãe ajudou. E, como ela gosta de se pôr a inventar, a verdade é que nenhum tem um formato igual. Alguns parecem flores, abertos ao meio, outros estão completamente fechados, outros parecem jiaozi... enfim, estão estranhos de formato, mas bons de sabor.
Adoro quando vejo fotos no Facebook de pessoal com tatuagens em Chinês que, depois de eu procurar aquilo que tatuaram só para ter a certeza de que eles não cometeram um grave erro, descubro que, por vezes, afinal não querem dizer nada do que eles pensam. Deveria contar-lhes ou calar-me bem caladinha e rir-me deles baixinho?
Quando estava a estudar, na China tinha um ritual de Domingo. Sair de manhã e só voltar à noite. Vagueava pela cidade, sozinha, com a máquina fotográfica, o mp3 nos ouvidos e lá ia eu toda contente. A meio da manhã, parava no Paris Baguette e comprava um maravilhoso Mocaccino gelado. Isto no Verão, claro.
No Inverno, gostava de me sentar no Starbucks a beber um Mocaccino bem quente.
Se soubessem como sinto a falta desses Domingos de café e chocolate...
Importante: Antes de ler, deve-se ouvir a canção, porque me lembra sempre aquela que é a minha terra.
O Verão chegou ao fim. A Feira da Luz e o marco que o assinala na nossa terriola.
Por aqui, vou-me dividindo entre procurar estágio, passar o máximo de tempo que posso com a família e amigos próximos, reencontrar colegas com que há muito não contactava, mimar o ursinho Gummy, que bem merece, e preparar o regresso a Braga por mais seis meses.
As saudades da China apertam mas a verdade é que as saudades de Montemor, que ainda não abandonei, sobrepõem-se a essas…
A calma do vale a que chamam cidade, as searas douradas que cobrem os terrenos que rodeiam o aglomerado de casas caiadas, o ar fresco que nos acaricia a face pelo nascer do sol enquanto ouvimos o cantar dos pássaros e que, por fim aquece, e tosta a pele de um dourado quente (pelo menos, a que deixa), o azul safira do céu durante o pôr-do-sol das noites de quarto crescente, o chocalhar dos badalos das ovelhas que entra pela janela do quarto nas noites mornas … Conseguisse eu levar a terriola numa mochila para onde quer que fosse!
Seja como for, este é o lugar de que vou “abalar” e a que vou regressar mais vezes durante a vida, estou certa.
Liebend & The Pen
P.S.: Pode-se dedicar uma canção de amor à terriola?
Desde pequena que um dos contos que mais me faz sorrir e andar com a cabeça no ar é Alice no País das Maravilhas. Comecei por ver o filme da Disney em VHS, dobrado em Português do Brasil ( que aproveito para lembrar que não é o Português que eu falo e escrevo). Era quase um ritual em
casa dos meus Avós, após sair das aulas. Antes dos trabalhos de casa, sentava-me na mesa redonda da sala de estar e, enquanto lanchava as torradas de pão alentejano (não há melhores!), deixava-me levar para o mundo da Alice. E isto durou muitos anos.
Já naquela altura, a minha personagem favorita não era a Alice. Não. Na verdade, achava a Alice uma menina tola e influenciável, demasiado curiosa e distraída. Para mim, a personagem mais interessante era o Gato Cheshire. A maneira como deixava Alice confusa, umas vezes ajuda
ndo-a, outras vezes conduzindo-a a problemas, mas sempre com um sorriso. O desaparecer e deixar só o sorriso no ar... Na criança que comia torradas, essa imagem do gato fazia-a acreditar que acontecesse o que acontecesse, um sorriso deve permanecer nas nossas caras. Hoje, já tenho outras interpretações das atitudes do Cheshire, como aliás era de esperar visto que quando crescemos vamos tomando consciência de que os desenhos animados também são feitos à imagem das pessoas, mesmo que tenham a forma de um gato. E sejamos sinceros, Cheshire ensina uma valiosa lição à menina loira, e a todos nós, quando a faz entender que não vale a pena ir contra a loucura, já que cada pessoa tem a sua e onde quer que ela vá acabará sempre por encontrar alguém. Afinal, se pensarmos bem, não é no País das Maravilhas mas sim na vida real que temos de lidar com várias pessoas, cada uma com as suas virtudes e defeitos. Para quê tentar ir contra isso e acreditar que há alguém que é virtuoso em quase tudo o que faz? A perfeição não existe, lamento informar-vos. Ninguém é perfeito, todos cometemos erros e o melhor que temos a fazer é mesmo sorrir.
Neste pequeno excerto, Cheshire aparece a Alice, entoando a primeira e última estrofes do famoso poema Jabberwocky de Lewis Carrol:
'Twas brillig, and the slithy toves
Did gyre and gimble in the wabe;
All mimsy were the borogoves,
And the mome raths outgrabe.
Ainda não me debrucei com atenção sobre o livro, confesso o pecado, mas está na minha enorme lista de livros a ler e preparo-me para encurtá-la o mais depressa possível, visto que ela cresce sempre que lhe toco.
Este ano, na China, tive a oportunidade de assistir no cinema ao filme de Tim Burton, em 3D. Confesso que talvez não faça grande diferença o filme ser em 3D mas, como grande fã que sou, tanto da estória como do realizador e de alguns elementos do elenco, não perdi a oportunidade de o ver! Como era de esperar, quase saltei da cadeira quando a grande cara de Cheshire com o sorriso matreiro estampado nela encheu a sala escura.
Mais, assim que vi as estatuetas de Alice e do Chapeleiro Louco à venda, comprei-as. Com muita pena minha, só tinham essas duas e o Cheshire não está na minha colecção de figuras. Por enquanto.
Ainda na China e antes da estreia do filme de Burton, andei viciada num pequeno anime, baseado no manga de Jun Mochizuki, Pandora Hearts. Dando vida a muitas das personagens de Alice e a outras que são pura imaginação do autor, esta estória faz-nos perguntar constantemente: Quem matou Alice?
No entanto, a Alice de que quero falar hoje é diferente de todas as outras que já referi em cima. É a Alice do famoso jogo de Mcgee.
Em 2000, saiu para o PC um jogo que viria a revolucionar a maneira como Alice era vista pelo mundo. A jovem doce e sonhadora dava lugar a uma rapariga traumatizada e que nos transporta para um país das maravilhas não tão maravilhoso como isso. Após um incêndio, Alice perde a família e é levada para um hospital psiquiátrico.Os olhos da menina não são doces e curiosos, Cheshire não é da cor do algodão-doce e o sorriso é ainda mais matreiro e assustador do que aquele que estamos habituados e, para nos deixar ainda mais admirados, a mesa de chá do Chapeleiro Louco não é tão convidativa como desejamos.
Onze anos depois do primeiro jogo, Alice volta ao PC. Alice Madness Returns é um dos jogos que mais aguardo. Com certeza que todos vós sabem que nem sempre o nosso país das maravilhas é cheio de encanto e cheiro a torradas caseiras.
Para já, peço desculpa de já não escrever há tanto tempo (mesmo que quase ninguém leia). A verdade é que, depois de voltar da fabulosa viagem que fiz e que irei relatar umas linhas mais à frente, tive problemas com o computador, a certa altura avariou e, depois de ser eficazmente reparado ali no 百脑汇, andei de novo com problemas para conseguir entrar nos sites proibidos da China (um à parte, o Google é que foi esperto, não? Até eu me mudava para Hong Kong!) Por fim, para ajudar,das últimas três vezes que tentei deixar aqui este texto,Hotspot fez o favor de se desligar a meio…
Seja como for, vamos ao que realmente importa!
Hong Kong! Sim, é disso que vos vou falar, escrever. Fui a Hong Kong e Macau (香港,澳门). Um grupo de 5 pessoas largou 天津 e aventurou-se pela China na altura do Ano Novo Chinês (not a very smart thing to do but it was fun!).
Como devem saber, e se não sabem eu explico, 天津 fica no Norte da China. Hong Kong é lá em baixo, como nós dizemos. Como chegámos nós lá? Aí é que está! Que aventura. Primeiro, passámos horas na neve para conseguir os bilhetes de comboio (bilhetes de avião eram demasiado caros). Fizemos turnos: vinte minutos, eu e a Rosa na fila, outros vinte minutos por conta da Bá, Kiyoshi e Cata. Ali perto havia um KFC (como nós o adoramos) e por lá ficávamos a aquecer-nos. As filas eram enormes. Chegámos às nove da manhã e conseguimos os bilhetes por volta da uma e meia da tarde.
Partimos durante a noite. Apanhámos um comboio para 深圳. A primeira parte da viagem seria passar 33 horas num comboio sem que o tédio nos matasse. Os bilhetes que compramos eram bilhetes de cama dura. Na China existem 4 tipos de bilhetes de comboio: bancos duros, são bons para pequenas viagens de uma, duas horas, no máximo; bancos moles, confortáveis para longas viagens; camas duras – bons, dormi mesmo bem nelas, e são também os mais difíceis de arranjar; e, por fim, camas moles, cuja diferença é oferecerem mais privacidade, visto que têm uma porta ao contrário das camas duras, e, em vez de cada compartimento ter seis beliches, tem quatro.
Acho que todosaqueles que quiserem viajar pela China devem passar pelo menos uma noite num destes comboios. Temos outra perspectiva sobre o país depois de vermos o contraste entre uma cidade com 10 milhões de habitantes e uma aldeia com 15 ou 20 casotas por pintar.
Ao chegarmos a深圳, esquecemos o frio que se vivia em天津 e corremos a apanhar o metro que nos levaria à fronteira entre a China e Hong Kong. E que fronteira! Parecia que tínhamos entrado noutro país.
Já na cidade, a primeira sensação que tive foi de que estava de volta a Londres. E, como muitos de vós sabem, essa é provavelmente a minha cidade favorita fora de Portugal. Numa frase, Hong Kong é a Londres do Oriente. É mais pequena, mas muito alta. Cheia de arranha-céus que durante a noite iluminam a cidade. Guia-se pela esquerda e as passadeiras assinalam em Inglês (tal como em Londres) e em Chinês qual o lado para que devemos olhar. Quase todos os habitantes falam um pouco de Inglês, o que facilita a vida a todos os estrangeiros. Apesar de ser uma grande cidade, as ruas são mais limpas do que na China e as pessoas são mais simpáticas para com os estrangeiros (até porque estão habituados a eles). Ao contrário da China, as lojas começam a abrir por volta das nove e meia, dez da manhã e as ruas ainda estão cheias de gente por volta da meia-noite. Não há censura!
Apesar do bom tempo (atenção que, para quem abandonou uma cidade cuja temperatura máxima era -5 ºC e chega a outra cidade em que a máxima são 14 ºC, estava muito bom tempo!) , no fim apanhámos algum nevoeiro.
Vou deixar algumas fotos dos locais por onde passámos, outras não deixo porque infelizmente, muitas delas perderam-se. Infelizmente as que tinha da última noite em Hong Kong, em que fomos à Avenue of Stars, foram as que desapareceram todas, pelo que não vos posso mostrar as mãos do Jackie Chan ou a estátua do Bruce Lee. Mas, garanto, estive lá!
Para irmos passar um dia a Macau, saímos pela manhã e apanhámos o ferry.Estávamos muito felizes porque achávamos que depois de aqui estarmos à tanto tempo, íamos poder comer pasteis de nata e outras iguarias do nosso país. Infelizmente, Macau foi uma desilusão. De certa forma, sentíamo-nos em casa porque As ruas lembram Lisboa ou o Porto, os sinais estão em Chinês e Português (se bem que parece que lá o acordo ortográfico já entrou em vigor) mas não se ouvia uma única palavra em Português. As mercearias tinham muitos produtos portugueses e eu comprei algo que não se encontra na China: um ovo Kinder!Infelizmente, os pastéis de nata de Macau são iguais ao resto da China… Só quando chegar a Portugal é que vou comer um em condições!
À noite, Macau transforma-se. Deixa de ser Portugal. Os casinos enchem-se de cor e a cidade surge como uma Las Vegas em miniatura.
A viagem terminou depois de outras 33 horas de volta a Tianjin.
Uma coisa ficou decidida: vou voltar a Hong Kong. Pode não ser este ano, mas ainda há muita coisa que quero ver.
A próxima viagem, que relatarei daqui a uma semana, ainda não aconteceu, mas será a realização de um sonho de há muitos anos!
Aguardem novidades.
Liebend
P.S.: Aqui ficam uns videos para saborarem um pouco mais.